O olho grego e os corações de cimento

Uma crônica da audiência de conciliação do Parque Augusta

Publicada anteriormente no medium.com.

Também válida para o Parque Vila Ema e seus atuais “donos”.

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Hoje a tarde estive no fórum para a audiência de conciliação do Parque Augusta.

O Parque Augusta é uma luta que se arrasta a muitos anos. Trata-se de um terreno na região central da cidade de São Paulo que possui uma vegetação bem expressiva e que foi palco de diversas manifestações nos últimos anos, para que a área se tornasse um parque público na sua totalidade.

As construtoras, atuais donas da área, pretendem erguer torres no local e usam seus argumentos de sempre: lucro, dinheiro, money. E danem-se as árvores, os pássaros e o desejo da população que apóia a causa.

Eles parecem não se preocupar com a poluição, com a falta de áreas verdes, com os pássaros, com toda a vida e a história que ali existe.

Ao chegarmos fomos impedidos de adentrar à audiência e um segurança marrudo, volta e meia, com toda a delicadeza de um ornitorrinco, nos questionava de qual movimento fazíamos parte, dizia que tinham autorizado apenas algumas pessoas etc. No final depois de muita insistência, foi permitido que mais alguns subissem ao andar da audiência, inclusive eu.

Ao entrar na sala, um cenário teatral, cadeiras, uma mesa a frente, onde a juíza tentava reger os argumentos dos promotores do Ministério Público e o advogado contratado, pelas duas empresas, representadas por dois senhores sentados na primeira fileira. A sala estava lotada de ativistas e alguns assessores de vereadores, todos relativamente comportados.

Fui me sentar na segunda fileira, onde pude sentir o clima da sala e estar perto dos “todos poderosos” que na minha mente criativa pareciam, chibatear o advogado que fazia tudo pelo seus amos.

Na frente, o grupo do Ministério Público, tentava infrutiferamente negociar 70 milhões (!) pelo terreno, que a prefeitura se propõe a pagar, mas o advogado dizia que o terreno vale 240 milhões (!) e que aceitavam (de bom grado) 120 milhões! :-D

E foi-se a tarde toda nessa disputa pitoresca, ridícula e cansativa, onde de vez em quando o advogado vinha perto dos senhores e eles diziam que não aceitavam nada diferente dos 120 milhões…

Uma ativista que estava ao meu lado, num momento, disse que queria socar os dois. Eu respondi pra ela que eu gostaria de dar um abraço neles pra ver se o coração de cimento deles se abria.

Interessante notar que um deles usava um “olho grego” no pulso, que segundo pesquisei agora, “é um talismã contra a inveja e o mau-olhado, é também conhecido como um símbolo da sorte e funciona contra energias negativas”. Ele mexia o tempo todo nesse tal olho grego. Vai ver realmente tava sentindo algo ali, e não é pra menos…

Esse fato me faz pensar que mesmo esses caras que se acham no topo do mundo, que participam do Porsche Clube (num momento vi isso no seu WhatsApp), também têm seus medos e são tão humanos quanto os ativistas pé rapados como eu.

Não sei o que se passa com eles, será que os valores são tão diferentes assim? Será que eles não gostariam de brincar no parque com seus cachorros, participar das nossas rodas de conversa, flertar com alguém no bosque, se sentir parte da humanidade plenamente? Ou será que estão tão presos aos seus brinquedos de luxo, a suas aparências, a seus cargos, posições, egos… Perderam o sentimento de criança? Não se divertem num passeio simples na natureza?

Gostaria sinceramente de dar um abraço nesse irmão e bater um papo de igual pra igual, um dia…

Em algum momento, eles disseram que os acionistas não ficariam felizes se ganhassem menos dinheiro… Talvez seja isso… São tão escravos quanto o advogado que contrataram… São escravos dos seus paradigmas, da vida que construíram.

Cansado da coisa toda, fui para o fundo da sala, tomei um café e sentei lá atrás. Uma senhorinha ativista se aproximou e disse que queria que eles morressem… Eu disse pra ela não pensar essas coisas, porque acredito na lei de ação e reação, mas ela disse que a vida dela não importava…

Me assustei com tamanha afirmação e disse que a vida dela importava pra mim e lhe dei um abraço… E novamente lembrei do olho grego…

A audiência terminou e não se chegou a um acordo.

Perguntei para o segurança se era sempre assim e como ele tinha paciência para aquilo e se prestava atenção… Ele disse que já ouviu “muitas coisas” no trabalho dele e que hoje tinha sido um dia tranquilo, que nos casos de moradia é muito mais violento.

Talvez para as construtoras que querem acabar com o pouco de verde que ainda temos na cidade, poderíamos agir, nas audiências, como os irmãos sem moradia. Talvez fizesse algum efeito nos corações de cimento…

No final, pensei que se eu tivesse esse poder nas mãos, eu daria esses parques de presente para as pessoas. Imagina que boa vibração, a cidade toda feliz e agradecendo a construtora e seus acionistas. Seria ótimo pra imagem delas… Talvez esses valores sejam gastos em propaganda e não têm nem de perto o efeito de ter uma benfeitoria eterna pra cidade, onde poderiam colocar o nome da empresa de forma vitalícia e receber a visita de milhares de pessoas todos os anos.

E talvez, o senhor poderia se livrar finalmente… Do seu olho grego.

Parque Vila Ema – O incêndio que destruiu as casas

Navegando no site GeoSampa, existem vários dados interessantes para os interessados em geografia. Por exemplo fotos de 2004, em resolução melhor que as do Google Earth.

Nesta foto podemos ver as casas que existiam no terreno antes do incêndio que ocorreu após a compra da Tecnisa.

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Parque Vila Ema – 2004 – Foto GeoSampa

Poucos registros, temos do que realmente aconteceu, mas fala-se num incêndio nas casas que datavam de pelo menos uns 50 anos e que pela sua beleza foram usadas durante algum tempo para festas de casamentos.

No site GeoPortal é possível ver fotos de 1958 e lá já é possível ver as casas e a mata.

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Parque Vila Ema – 1958 – Foto Geoportal – É possível ver as casas.

Abaixo o registro do incêndio no Diário Oficial.
Oregon Investimentos é uma empresa do grupo da Tecnisa S/A.
Receberam a pífia multa de 4 mil reais…

2007-09-20 - 08-252.843-8 - Página 82 - D.O. -Oregon poe fogo no barraco
Diário Oficial de São Paulo – 20/09/2007 – Página 82

Acredito que se esse incêndio não tivesse ocorrido, poderíamos ter um belo patrimônio histórico preservado, como foi feito na Subprefeitura da Vila Prudente. Ela funciona em um casarão provavelmente da mesma época e fica a poucos metros do Parque Vila Ema, do outro lado da estação do Monotrilho Oratório. Vale a pena conhecer também.

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Casarão onde funciona a Subprefeitura de Vila Prudente

Trabalho acadêmico sobre o Parque Vila Ema

Em 2014, a estudante Jaqueline Horvath nos procurou pois estava interessada em fazer o seu trabalho de conclusão do curso de Arquitetura com o tema:  Parque Vila Ema.

No ano passado, ela nos apresentou o seu projeto, agora já terminado o curso.

E o que podemos ver é um projeto muito bonito e tecnicamente muito bem feito que poderia ser o parque! Fica a dica prefeitura.

As imagens são grandes, clicando nelas, é possível conferir o pdf de cada página.

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Através dessa primeira página, nos foi possível saber que existe sim um afluente do córrego da Mooca (este que fica embaixo da Av. Anhaia Melo) que passa por baixo do terreno parque. Inclusive o trabalho propõe a abertura desse afluente, criando paisagismo e mais vida. Essa é uma decisão que também já ouvimos do poder público, através da Secretaria do Verde, de que hoje, os rios voltam a ter a importância devida e nos casos onde é possível, devemos sim, traze-los a tona e restaura-los. Outros coletivos também tem trabalhado nesse sentido, como o Rios e Ruas.

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Nesta página podemos ver alguns cortes do projeto, assim como uma visão geral dos equipamentos propostos para o projeto.

O texto dessa imagem está abaixo:

“Como sabemos os recursos naturais são finitos e preservar a menor área verde existente é muito importante, assim como rearborizar as ruas da cidade, recuperar áreas  contaminadas e implantar novos parques em áreas  subutilizadas, para assim a natureza conseguir se recuperar de todos os estragos que as cidades causam.
O principal objetivo do parque urbano atual preservar a vegetação dentro das cidades e com isso melhorar a qualidade de vida, fazer com que as pessoas se integrem com a natureza e cidade no cotidiano.

Outro objetivo é trazer a população para o lazer longe das telas dos computadores e  celulares, fazendo com que a pessoa trabalhe corpo e mente num ambiente natural.
O Parque da Vila Ema tem por objetivo preservar a vegetação existente, (já que esta é a ultima área verde existente no bairro da Vila Ema e com vegetação da Mata Atlântica), e dar aos moradores um local de lazer. Os moradores locais fundaram um grupo, Amigos do Parque da Vila Ema, que defende a proposta de usufruir do espaço e preservar a vegetação local.

O conceito do projeto, atendendo demandas dos moradores locais é: preservar as árvores existentes, promover o bem estar da população, consolidar um espaço público conectando-o com seu entorno,preservando a densa mata existente e e a permeabilidade do solo, criando espaços de lazer, esporte, contemplação e eco-revelação de um córrego escondido que atravessa a área. A topografia local pouco acentuada, com de 5%, onde foi possível implantar diversos usos em todo o terreno sem utilizar muita movimentação de terra.

O projeto apresentado possui as seguintes características: dois eixos principais de circulação e acesso (norte/sul e oeste/leste), a quadra poliesportiva, praça do skate, churrasqueiras, palco e playground foram pensados para se conectar e manter a maior parte do movimento em um mesmo local, mantendo as demais áreas para descanso ou contemplação. O projeto da praça foi concebido para conectar os fluxos entre o parque e monotrilho.
Para viabilizar a maior área permeável possível, os pisos internos serão em intertravado drenante e piso de terra e areia (PTA) e para as calçadas em placa de concreto drenante. Além dos acabamentos para auxiliar na drenagem local, as calçadas em torno do projeto foram projetadas com biovaleta, como um canteiro permeável para onde correm as águas das calçadas e da sarjeta.
As construções da administração e churrasqueira são em alvenaria e laje em concreto, e pergolado de madeira e trepadeiras.
A quadra poliesportiva foi projetada para ter uma cobertura leve em treliça espacial metálica em aço e uma cobertura de policarbonato transparente. A espacial foi escolhida para incluir trepadeiras na cobertura.

Os decks (do lago e no solário) e os pergolados foram projetados com madeira Biosintética, que é um material industrializado com a reciclagem de plástico, fibra vegetal cola e corante, esse material é mais leve e não sofre com a umidade.
O playground possui piso emborrachado, por ser mais seguro para as crianças, porém ao centro de um dos equipamentos infantis tem areia para brincar.
O palco e a praça de skate são as em concreto devido a necessidade para seus usos.

A praça na quadra a frente também apresenta piso em intertravado drenante no eixo de ligação do parque com o monotrilho e placa de concreto drenante para os demais pisos e calçadas da praça.
O gradil de fechamento foi projetado para não ser implantado no limite do lote, ou seja, em determinados trechos o gradil recua, dando origem a de entrada, mantendo áreas abertas ao público 24h por dia.”

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Nesta página podemos conferir as diversas espécies de árvores que complementariam as já existentes. Interessante a possibilidade de incluir um pomar, coisa que já existe e que por muitos anos foi usufruído pelos moradores e visitantes do local. Também vale lembrar as espécies que fariam papel de limpeza das águas, como o Papiro e outras, tendo aí mais uma função, devolver a água ainda mais limpa ao córrego do Mooca.

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Finalmente, algumas imagens em 3D de vários ângulos para uma visão geral da proposta.

Junto a estas imagens, também tem uma maquete como vemos abaixo.

E o link para o pdf da Monografia:

https://vivaoparque.files.wordpress.com/2016/07/pq-vila-ema_jaqueline-horvath_l.pdf

Imagens:

https://vivaoparque.files.wordpress.com/2016/07/parque-vila-ema-01.pdf
https://vivaoparque.files.wordpress.com/2016/07/parque-vila-ema-02.pdf
https://vivaoparque.files.wordpress.com/2016/07/parque-vila-ema-03.pdf
https://vivaoparque.files.wordpress.com/2016/07/parque-vila-ema-04.pdf

Fica o agradecimento do Movimento ao trabalho da Jaqueline e que esta tenha muito sucesso como arquiteta.

O verdadeiro valor das árvores

Blog do Instituto Árvores Vivas

verdadeiro-valor-arvorespor Juliana Gatti post originalmente publicado no portal Conexão Planeta em 19 de janeiro de 2016

Enxergo as árvores como seres espetaculares e essenciais pela grande rede de conexões que mantêm com a vida, seja de maneira ecológica ou ecossistêmica, seja em termos de valores culturais, históricos, simbólicos e tradicionais. Além desses valores e da importância essencial que, muitas vezes, é pouco percebida ou pouco consciente para as pessoas, há o valor mais direto e mensurável ligado aos recursos oferecidos por elas e que são modificados e transformados pelo ser humano para atender suas necessidades. Falo, aqui, de elementos como o papel, as frutas, a madeira, a casca, as fibras, as resinas, os óleos, os pigmentos e de diversas substâncias químicas, entre outros.

O valor das árvores nunca deveria ser reduzido ao fornecimento de produtos, recursos ou matéria-prima. Uma árvore frutífera não é só provedora de frutos, assim como uma…

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Primeiras enchentes de 2016

 

Enchente em frente ao terreno que pleiteamos o Parque Vila Ema.

Será uma boa idéia derrubar as árvores para construir prédios nessa região? Tecnisa e Prefeitura de SP que respondam…

Estimou-se que uma árvore de médio porte pode tipicamente interceptar 12.795 L de água de chuva por ano (CUFR, 2002). Silva et al. (2007) citados por Aguirre Junior e Lima (2007) relataram que algumas espécies de maior porte usadas na arborização urbana, como a sibipiruna e a tipuana, podem reter até 60% da água nas duas primeiras horas de chuva, liberando-a aos poucos.

FONTE: Embrapa – http://www.ufscar.br/~hympar/arquivos/EMBRAPA_Documentos89.pdf

A luta dos moradores para salvar as escassas áreas verdes de São Paulo

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